domingo, 22 de maio de 2011

A ÚLTIMA RUA - FINAL.


E então ao entender o meu amor, Soraia esticou a sua mão através do espelho e tocou a minha mão. 
-Tem certeza que é isso que você quer?
-Com a certeza de toda a minha alma! Eu não poderia viver mais um segundo sem você.
Ela sorriu. E me puxou para dentro do espelho. No beijamos pela última vez e a danação de nossas almas começou.  Todos os moradores daquela cidade que Soraia matou e manteve cativa as suas almas desde 1800 foi passando por nós, enquanto a besta se alimentava de nossa dor. Ela sorria e festejava o nosso sofrimento. Mas o meu amor por Soraia ia me fortalecendo e a Soraia também até que a última alma foi liberta e seguiu o seu caminho para a luz e que haveria de seguir. Eu e Soraia não aguentávamos mais, e pedir para morrer era impossível porque havíamos morridos centenas de milhares de vezes.
Então sarcasticamente a Besta apareceu em nossa frente com o seu mundo de dor terrível que parecia nos esmagar.
- Agora podem ir, e se precisarem de mim para mais alguma trabalho estou sempre a disposição. Sempre.
Derrepente toda a casa de Soraia desapareceu e somente eu e ela ficamos  um ao lado do outro. E começamos a caminhar entrando pela última rua da cidade e passando por todas as casas. 
- Todas as almas se foram. Estão livres.  - Eu disse.
- A minha alma ainda esta presa. Eu vagarei por anos ainda a solidão dessa cidade. 
- Não, eu estarei ao seu lado aqui.
- Não percebes Álvaro que está vivo e eu ainda não. Agora eu purgo, nesse purgatório. Deixei o inferno, mas ainda estou no purgatório. E tem que ser assim.
-Não. Eu me matarei para estar ao seu lado...
-Não, não aumente mais a minha pena. Ouça o que tem a fazer é viver tudo o que tem para viver. Até o dia em que nos encontraremos novamente. 
- Mas ...
- Acredite em nosso amor.
Foi a última coisa que ela disse e desapareceu de minhas mãos. Agora eu que sentia a dor de sua ausência a solidão de não te-la. A minha alma doía coisa que nunca imaginei ser tão doloroso e  foi quando a Besta apareceu com  a sua proposta.Aproveitando a minha dor, como é de sua natureza.
- Eu te darei Soraia, desde que me dê almas.
-Almas...
- Uma por dia. E terá Soraia um dia de cada vez.
-Não obrigado, vou seguir o meu caminho. Sou homem de encarar a minha dor, a minha fraqueza.
Ela então se irritou e gritos e  outras bestas apareceram numa escuridão que se fez o dia. Eu não temi . Nenhuma proposta me faria matar alguém . Eu esperarei Soraia o tempo que for preciso, mas com a alma limpa.  Então a besta se foi e toda a escuridão. Eu caminhei pela cidade deserta e entrei na igreja. Procurei o livro de registro  de todos que foram batizado desde 1800 e comecei a rezar pelo perdão e pela alma de cada um. E alguns meses depois a cidade voltou a ter moradores vivos. Um padre, e eu como um homem envelhecendo e esperando a morte até encontrar Soraia novamente, mas de alma limpa.