quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Os malditos de Naya.

Trovões estremeciam o meu carro, ao mesmo tempo em que me cegavam raios intensos cortando os céus naquela maldita noite, num trecho da rodovia BR 319. Eu havia deixado Porto Velho em Rondônia e me dirigia a Manaus. Iria cortar ou sobreviver nessa rodovia mal conservada e engolida pela selva amazônica. Passei por Humaitá e segui a BR 319. Sou representante comercial de maquinas de cartão de uma empresa de São Paulo, e como por essas regiões a economia está acontecendo eu tive que aproveitar a oportunidade. É uma grande região, e poderia fazer todo o percurso de avião. Mas me encantava muito dirigir por essas bandas, conhecer então a famosa Floresta Amazônica.
 
Trovões estremeciam o meu carro, ao mesmo tempo em que raios cortavam a noite.
 
A chuva era intensa e não parecia que ia cessar. A rodovia muito mal conservada, lama pura me fez atolar num trecho. Não podia descer, tive que esperar. E na mesma noite como a um ato seguinte o Céu estrelou. Via-se ao fundo no horizonte a tempestade se indo com seus raios.
 
Então desci e mesmo na escuridão tentei desatolar o carro. Impossível. Florestas imensas como paredões intransponíveis de árvores cercava a rodovia, ladeava. E como um mundo estranho e distante do meu. A floresta estava silenciosa.
 
Fiquei olhando para ela, e então eu senti ela me engolir. Hipnotizado, acompanhei o seu chamado. Agora eu ouvia todos os animais da noite. Toda a vida da floresta e quando dei por mim o silêncio novamente.
 
Por alguma razão ou acontecimento. Sei-lá. Acho que a minha pressão caiu ou subiu, mas o fato era que eu estava fora de mim, inconsciente. Sentindo mãos invisíveis e dominantes me carregarem.
 
O calor desapareceu, a floresta densa e cheia de vida desapareceu. Abri os olhos, até então não sabendo que eles estavam fechados. E me assustei.
 
Agora árvores negras e secas como cadáveres inundavam um campo sem horizontes, e que parecia não ter fim.
 
Senti um frio, uma nevoa fétida de coisa que não tem vida. O silêncio regia a tudo. E ao olhar mais profundamente, eu vi que folhas negras gigantescas entrelaçadas como um a um casulos pendiam das árvores em imensos cordões umbilicais. Eu soube de alguma forma que eram sangue, mas não era vermelho. Era sangue negro.
 
Então ela apareceu.
 
De estranha forma, com olhos dominantes e que pareciam saber de mim. Era um vulto, um demônio, um ser humano, um... Tudo junto e ao mesmo tempo. E com ela centenas de pessoas ao seu redor. Pessoas como eu. Perdidas naquele mundo, e sem poder dizer que estava com medo. Como se a nossa alma estivesse sido penhorada, suspensa e mesmo assim se podia perceber que se tem uma alma.
 
- Bem vindo ao banquete! - Ela disse com uma voz igual uma serra elétrica cortando uma carne com osso. - Sou Naya o que você sempre me alimentou toda vez que matou, desprezou, ignorou. Somente pessoas assim, alimentos assim caem em meu reino.
 
Era uma punição moral, eu sabia, eu entendi. Mas não me lembrava qual era a minha culpa.
Talvez tudo aquilo fosse fruto de alguma árvore alucinógena da floresta que eu esbarrei.
 
Mas Naya insistiu.
- E já que me alimentaram por tanto tempo, agora é a vez de a alimentarem os meus filhos.
Então as folhas negras começaram a se abrir, e centenas de criaturas começaram a sair recém-nascidos e famintos. Gritos estridentes das criaturas, e gritos de dores das pessoas se misturavam. Assim como sangue vermelho que caia sobre aquele mundo negro.
Naya gritava contente, feliz como uma mãe que vê o seu filho se alimentarem.
 
Então uma dessas criaturas se aproximou de mim e como se eu fosse um brigadeiro, me comeu.
Senti a sua boca imensa e fétida mastigar o meu corpo numa dor infernal e mesmo sendo triturados por dentes imensos e afiados eu ainda estava vivo.
Senti o meu braço direito ser arrancado, depois a minha cabeça e o resto do corpo. Senti ser engolido, descer garganta abaixo junto com uma saliva densa e acida até cair no estômago daquela criatura, arder num  taxo de óleo fervendo. Uma dor mil vezes insuportável a qualquer dor que havia sentido.
A minha alma doía.
E soube que ficaria ali, por muito tempo até ser digerido. Outros pedaços de pessoas iam caindo garganta abaixo. E como um ponto escuro em minha alma ganhou luz, encontrei uma voz.
Era um perdão, uma magoa minha que me fez não conversar com uma pessoa por anos. Eu pude perdoar e aceitar o seu perdão.
Incrivelmente acordei dentro do meu carro sabendo que um inferno passou em minha vida.
A estrada continuava na lama, mas o meu carro não estava mais atolado.
Cheguei a Manaus, e liguei para minha mãe pela primeira vez em três anos. Ela me pediu desculpa, e eu também.
Talvez a floresta, à noite, ou Naya, não sei. Mas daquela noite em diante, eu procurei sempre ter mais cuidados com as minhas magoas.