domingo, 22 de maio de 2011

O carona.

Beto, trabalhava na mesma empresa há cinco anos. Nos três primeiro anos Beto morava próximo a empresa, na cidade de São Bernardo. Mas quando o seu pai aposentou a família toda decidiu morar em Santos no litoral paulista e que fica apenas uma hora da cidade de São Bernardo. E assim todos os dias Beto ia e vinha pela rodovia  dos Imigrantes que  corta a imensa Serra do Mar coberta ainda por vegetação nativa e com imensos túneis  para se passar. Beto, fez amigos em Santos e todos os sábados jogavam um futebol de areia com o mar lambendo os seus pés. E como toda sexta feira o expediente ia até às 16 horas, Beto aproveita para tomar uma bebidinha com os amigos da empresa num bar ali de São Bernardo. E mesmo tendo consciência de que se beber não deve dirigir, Beto abusava. E vinha com aquela conversa de que dirigia melhor bêbado. E assim foi por alguns anos. Mas o destino está sempre de olho em nossos atos, pronto para aprontar das suas.
E assim que numa sexta feira,  Beto depois de beber com os amigos, tomou a rodovia dos Imigrantes para voltar para a casa, quando encontrou uma chuva típica da Serra do Mar. Mal se podia ver com tanta nuvens quase que abaixando sobre os carros. E já alcoolizado Beto então derrapou e  atropelou um pedinte que ia pelo acostamento e seguindo em zig zag  Beto bateu o carro numa árvore e  no mesmo instante curou de seu porre. Saiu do carro para ver o que aconteceu. Viu primeiro o carro,  que sofrera amassados diversos mas nada que o martelinho de ouro não resolvesse.  E quando olhou para atrás viu o corpo do  pedinte caído ao chão. Pensou em imediatamente fugir, porque teria complicações. Estava Bêbado, e aproximar-se do pedinte ele ainda respirava. Tomou o telefone da concessionária e ligou para o resgate e depois entrou em  seu carro tomando o rumo para  a sua casa. Chegando lá contou a sua família que apenas bateu o carro. Com medo não falou do atropelamento. Depois  foi para o seu futebol, arrumou o carro e voltou para o seu dia a dia. E  na segunda quando voltou a trabalhar passou pelo local do acidente  e pode perceber que tudo estava como antes. Beto se sentiu aliviado.  A noite quando voltou para casa, ao passar pelo local do atropelamento. Assustou-se e parou.  Incrívelmente como a uma visão diabólica,  viu um corpo deitado ao chão e no mesmo local onde estava o mendigo que atropelou. olhou pelo retrovisor e o corpo continuava lá. Então aproveitou o trânsito  leve, desceu do carro e dirigiu-se para ver se era o mesmo corpo do pedinte que atropelou. Ascendeu a luz de seu celular e não viu mais nada. Beto achou ter visto coisa e voltou para a casa. No dia seguinte quanto voltou para a casa novamente ao passar pelo mesmo local não viu corpo algum mas  figura sinistra do homem que atropelou estava em pé olhando para ele. Beto se assustou e acelerou entrando com velocidade máxima dentro do túnel e correu para a sua casa, assustado demais para comentar o assunto. Perturbado com a imagem do mesmo homem que atropelou. E naquela noite não dormiu.
No dia seguinte chegou na empresa assustado, e com medo de voltar pelo mesmo caminho.Achou melhor dormir a casa de algum amigo ou em hotel. Avisou a sua família  de que estaria a trabalho e passou a semana ali mesmo em São Bernardo. Mas a sexta feira chegou e jogar o futebol com os amigos era indispensável. E como toda sexta feira terminavam o expediente as 16 horas, Beto correu com o carro para pegar a rodovia  dos Imigrantes ainda com sol para chegar em casa antes das 18 horas. Mas o transito não ajudou, estava lento e propositalmente a noite veio. Beto temeu e ao passar pelo local do acidente desviou o seu olhar para não ver o atropelado.  E passou sem vê-lo.  Beto aliviou-se até entrar no túnel, quando ao banco do carona o atropelado estava sentado.  Beto sentiu o seu corpo gelar, mas não podia parar de dirigir. O atropelado olhou para ele com a marca de sangue ainda em sua cabeça o braço retorcido e as pernas quebradas. A luz que iluminava o imenso túnel , iluminava claramente o atropelado. E ao sair do túnel o atropelado desapareceu.
-Acho que estou vendo coisas. Vou procurar um psicólogo na segunda feira. - disse Beto, que voltou para casa transtornado e abatido.
Na segunda pela manhã quando voltava para trabalhar  ao entrar no túnel, sentiu um tranco em seu carro. Parou no acostamento e desceu para ver do que se tratava. Foi quando percebeu que amassado no capô do carro voltou. O mesmo amassado que ficou após atropelar o mendigo. Mas como aquele amassado novamente  se havia arrumado todo o carro a uma semana?  Ao entrar no carro, e acelerar viu novamente o mendigo sentar-se no banco do carona. 
E ao sair do túnel ele desaparecia. Assim como desaparecia o amassado no capô de sua carro.
E foi assim durante uma semana. Beto procurou psicólogos, pediu para rezar uma missa para aquela alma.
E numa sexta feira quando bebeu mais um pouco e ia voltando para a casa, encontrou o mendigo sentado em sua carona novamente. E com a bebida alta, Beto sentiu coragem de falar com aquele fantasma.
- Vamos o que você quer? Quer me levar, então me leva porque eu não aguento mais.
- Eu quero que você me leve para ver uma pessoa. Eu estava indo ver essa pessoa quando você me atropelou.
Beto respirou fundo. E sem que palavra alguma a mais fosse dita, Beto levou o mendigo para o local que ele queria como se o mendigo agora dirigisse o carro. Chegaram a uma casa simples de caiçaras  a beira do mar. E  Beto desceu do carro tento o mendigo ao seu lado. Uma mulher apareceu magra simples sofrida em seu rosto e corpo.
- O que quer!
Beto então olhou para o mendigo. E começou a falar o que o mendigo lhe disse para falar.
- O seu filho Samuel.
- O que ele fez dessa vez?
- Ele pede desculpas por tudo que fez. Pede perdão mesmo e diz que a bebida e as drogas e que acabaram com ele. Mas ele nunca deixou de te amar como mãe. Ele pede que o seu corpo se jogado ao mar, porque ele não quer que ninguém mais chore por ele. Ele sente muito ter feito tanta gente chorar. 
- Você esta vendo ele....
- Ele esta ao meu lado.
- Então diga a ele que vá com Deus e que eu o perdoou sim. Porque uma mãe nunca deixa de gostar de seu filho.
Beto olhou para Samuel. Ele agora sorriu sem marca alguma do acidente e foi ficando transparente. E antes de sumir de vez olhou para Beto.
- Não se preocupe, você não me atropelou. Eu que me joguei em seu carro. Eu estava com medo de olhar para a minha mãe depois de tanto a fazer sofrer. Obrigado Beto. Obrigado.
Samuel se foi e Beto ficou conversando com a sua mãe. Aliviado agora de sua culpa, decidiu não beber mais em sua vida e não temer mais os seus erros. Passou a visitar aquela senhora todos os finais de semana onde trazia roupas novas, tv e alimento para ela. O que de alguma forma alimentava agora a sua alma com o que até então não havia descoberto na vida. O destino sempre tem uma carta a mais na manga ou uma nova jogada.