Os malditos de Naya.
Trovões estremeciam o meu carro, ao mesmo tempo em que me cegavam
raios intensos cortando os céus naquela maldita noite, num trecho da rodovia BR
319. Eu havia deixado Porto Velho em Rondônia e me dirigia a Manaus. Iria
cortar ou sobreviver nessa rodovia mal conservada e engolida pela selva
amazônica. Passei por Humaitá e segui a BR 319. Sou representante comercial de maquinas de
cartão de um empresa de São Paulo, e
como por essas regiões a economia está acontecendo eu tive que aproveitar a
oportunidade. É uma grande região, e poderia fazer todo o percurso de avião.
Mas me encantava muito dirigir por essas bandas, conhecer então a famosa
Floresta Amazônica.
Trovões estremeciam o meu carro, ao mesmo tempo em que raios cortavam
a noite.
A chuva era intensa e não podia parar. A rodovia muito mal conservada,
lama pura me fez atolar num trecho. Não podia descer, tive que esperar. E na
mesma noite como a um ato seguinte o Céu estrelou. Via-se ao fundo no horizonte
a tempestade se indo com seus raios.
Então desci e mesmo na escuridão tentei desatolar o carro. Impossível.
Florestas imensas como paredões intransponíveis cercava a rodovia, ladeava. E
como um mundo estranho e distante do meu. A floresta estava silenciosa.
Fiquei olhando para ela, e então eu senti ela me engolir. Hipnotizado,
acompanhei o seu chamado. Agora eu ouvia todos os animais da noite. Toda a vida
da floresta e quando dei por mim o silêncio novamente.
Por alguma razão ou acontecimento. Sei-lá. Acho que a minha pressão
caiu ou subiu, mas o fato era que eu
estava fora de mim, inconsciente. Sentindo mãos invisíveis e dominantes
me carregarem.
O calor desapareceu, a floresta densa e cheia de vida desapareceu. Abri
os olhos, até então não sabendo que eles estavam fechados. E me assustei.
Agora árvores negras e
secas como cadáveres inundavam um
campo sem horizontes, e que parecia não
ter fim.
Senti um frio, uma nevoa fétida de coisa que não tem vida. O silêncio regia a tudo. E ao olhar mais
profundamente, eu vi que folhas negras gigantescas entrelaçadas como um a um casulo pendiam das arvores em imenso cordões
umbilical. Eu soube de alguma forma que eram sangue, mas não era vermelho. Era
sangue negro.
Então ela apareceu.
De estranha forma, com olhos dominantes e que pareciam saber de mim. Era um vulto, um demônio, um ser humano, um...
Tudo junto e ao mesmo tempo. E com ela centenas de pessoas ao seu redor. Pessoas
como eu. Perdidas naquele mundo, e sem poder dizer que estava com medo. E como
se a nossa alma estivesse sido penhorada, suspensa e mesmo assim se podia perceber que se tem uma alma.
- Bem vindo ao banquete! - Ela
disse com uma voz igual uma serra elétrica cortando uma carne com osso. - Sou
Naya o que você sempre me alimentou toda
vez que matou, desprezou, ignorou. Somente pessoas assim, alimentos assim caem
em meu reino.
Era uma punição moral, eu sabia, eu entendi. Mas não me lembrava qual
era a minha culpa.
Talvez tudo aquilo fosse fruto de alguma arvores alucinógena da
floresta.
Mas Naya insistiu.
- E já que me alimentaram por
tanto tempo, agora é a vez de a alimentarem os meus filhos.
Então as folhas negras começaram a se abrir, e centenas de criaturas
começaram a sair como se fossem recém nascidos e famintos. Gritos estridentes
das criaturas, e gritos de dores das pessoas se misturavam. Assim como sangue
vermelho que caia sobre aquele mundo negro.
Naya gritava contente, feliz como uma mãe que vê o seu filho comer
bem.
Então uma dessas criaturas se aproximou de mim e como se eu fosse um
brigadeiro, me comeu.
Senti a sua boca imensa e fétida mastigar o meu corpo numa dor
infernal e mesmo sendo triturados por dentes imensos e afiados eu ainda estava
vivo.
Senti o meu braço direito ser arrancado, depois a minha cabeça e o resto do corpo. Senti ser engolido, descer
garganta abaixo junto com uma saliva densa e acida até cair no estomago daquela
criatura, e arder como a um taxo de óleo fervendo. Uma dor mil vezes qualquer dor.
A minha alma doía.
E soube que ficaria ali, por muito tempo até ser digerido.
Outros pedaços de pessoas iam caindo garganta abaixo.
E como um ponto escuro em minha alma ganhou luz, encontrei uma voz.
Era um perdão, uma magoa minha que me fez não conversar com uma pessoa
por anos. Eu pude perdoar e aceitar o seu perdão.
Incrivelmente acordei dentro do meu carro sabendo que um inferno
passou em minha vida.
A estrada continuava na lama, mas o meu carro não estava mais atolado.
Cheguei a Manaus, e liguei para minha mãe pela primeira vez em três anos.
Ela me pediu desculpa, e eu também.
Talvez a floresta, a noite, ou Naya, não sei. Mas daquela noite em diante, eu
procurei sempre ter mais cuidados com as minhas magoas.